O mercado global de criptoativos vive um momento de consolidação regulatória que se manifesta em frentes distintas: de um lado, grandes gestoras de ativos recebem aval de bancos centrais para lançar produtos tokenizados, isto é, representações digitais de ativos financeiros tradicionais em blockchain, ; de outro, pesquisas mostram que a adoção popular cresce em ritmo acelerado, ainda que acompanhada de lacunas no entendimento das regras vigentes. Dois movimentos que, juntos, pressionam reguladores a equilibrar proteção ao investidor com espaço para inovação.
Aviva Investors lança cotas tokenizadas no XRP Ledger com aval do Banco Central da Irlanda
Na Europa, a Aviva Investors, braço de gestão de ativos da seguradora britânica Aviva Plc, obteve aprovação do Banco Central da Irlanda para lançar uma classe de cotas tokenizadas do seu US Dollar Liquidity Fund, fundo de liquidez em dólar americano, sobre o XRP Ledger (XRPL), a blockchain pública desenvolvida pela Ripple. O anúncio marca mais um passo na expansão dos chamados ativos do mundo real tokenizados (RWA, na sigla em inglês) em infraestruturas de blockchain reguladas.
A nova classe de cotas estará disponível a investidores elegíveis que possuam carteiras digitais. Os ativos subjacentes do fundo continuarão custodiados pelo BNY Mellon, instituição financeira tradicional, enquanto a Komainu ficará responsável pela custódia digital e a Licuido fornecerá a infraestrutura de tokenização. Segundo a Aviva, a classe tokenizada mantém o mesmo objetivo de investimento e perfil de liquidez do fundo convencional, que aplica em títulos de dívida de curto prazo e instrumentos do mercado monetário emitidos por governos, bancos e corporações.
O lançamento é fruto de uma parceria com a Ripple anunciada no início deste ano. No XRPL, o produto segue o caminho aberto em 2024 pela Archax, que tokenizou o US Dollar Liquidity Fund da gestora britânica abrdn. Em escala global, outras grandes casas como BlackRock, Franklin Templeton e Apollo também já lançaram fundos tokenizados, sinalizando que a demanda por produtos financeiros baseados em blockchain ganhou tração institucional irreversível.
O aval do Banco Central da Irlanda é um elemento central dessa narrativa: sem respaldo regulatório, estruturas desse tipo não chegam ao mercado de forma aberta. A aprovação demonstra que reguladores europeus têm avançado em frameworks que permitem a coexistência de custódia tradicional e infraestrutura descentralizada.
Adoção de criptomoedas no Canadá cresce, mas lacunas regulatórias preocupam a OSC
No hemisfério ocidental, dados divulgados pela Comissão de Valores Mobiliários de Ontário (OSC) revelam que a posse de criptomoedas entre canadenses saltou de 10% em 2023 para 25% em 2026, crescimento expressivo em apenas três anos. A pesquisa ouviu 2.360 indivíduos com 18 anos ou mais entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, e apontou que 59% dos entrevistados já têm consciência sobre criptoativos.
O avanço na adoção, contudo, não vem acompanhado de plena compreensão das regras do setor. Cerca de 50% dos detentores de criptomoedas disseram verificar se uma plataforma está registrada antes de usá-la, mas muitos ainda apresentavam “algum equívoco sobre regulação, proteções de seguro e capacidades de transação”, conforme o relatório da OSC. “Os mercados de cripto continuam evoluindo, e os canadenses estão participando deles mais do que nunca”, afirmou Naizam Kanji, vice-presidente executivo de regulação estratégica da OSC, destacando que a pesquisa serve para antecipar oportunidades e riscos e calibrar a abordagem regulatória.
No plano legislativo, o governo federal canadense também tem movido peças: em abril, avançou um projeto de lei que pode proibir doações políticas em criptomoedas e propôs o banimento de caixas eletrônicos de ativos digitais, citando preocupações com fraude. O conjunto de medidas reflete a tentativa de criar guardrails, salvaguardas regulatórias, enquanto a base de usuários se expande rapidamente.
Os casos da Aviva e do Canadá ilustram duas faces da regulação cripto em 2026: a vertente institucional, que avança via aprovações formais de bancos centrais e comissões de valores mobiliários para produtos sofisticados; e a vertente de varejo, que lida com uma população crescente de detentores de ativos que ainda não domina completamente o ambiente normativo em que opera. O equilíbrio entre fomentar a inovação financeira e proteger investidores menos informados segue como o principal desafio para reguladores ao redor do mundo, e os próximos movimentos legislativos e de aprovação de produtos devem continuar testando esse limite.
Fontes: Cointelegraph.com News
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