Empresas de inteligência artificial que financiaram a campanha de Donald Trump com a expectativa de um ambiente sem regulamentação agora pedem formalmente por regras ao governo federal americano. Segundo reportagem do Politico publicada em junho de 2026, executivos de companhias de IA de fronteira procuraram a administração Trump para solicitar a criação de um marco regulatório formal para o setor.
Durante a corrida eleitoral americana de 2024, parte relevante do Vale do Silício apoiou Donald Trump com a expectativa de que sua gestão adotaria uma postura de não intervenção sobre o desenvolvimento de inteligência artificial. A promessa de eliminar as diretrizes de IA elaboradas pelo governo Biden era vista como positiva pelo setor. O governo Trump, de fato, revogou medidas anteriores logo após a posse. No entanto, a ausência de qualquer estrutura regulatória passou a ser interpretada pelas próprias empresas como um risco — e não mais como uma vantagem competitiva.
A reversão de posição da indústria de IA é um sinal relevante sobre a maturidade do debate regulatório global. Sem regras claras, empresas enfrentam insegurança jurídica, dificuldades para firmar contratos com governos e organismos internacionais, e pressão crescente de parceiros europeus, que já operam sob o AI Act. A ausência de regulação também dificulta a definição de padrões técnicos de segurança e responsabilidade, o que pode frear a adoção corporativa em setores sensíveis como saúde, finanças e infraestrutura crítica. O movimento indica que o setor passou a enxergar regulação não como obstáculo, mas como instrumento de legitimidade e previsibilidade para negócios de longo prazo.
Ainda não há confirmação pública de que a administração Trump iniciará formalmente um processo legislativo ou executivo para regulamentar a IA. O Politico relatou que os executivos veem a falta de posicionamento do governo como um vácuo institucional preocupante. O Congresso americano tem debatido propostas pontuais, mas sem consenso sobre abrangência ou modelo. A pressão do setor privado pode acelerar movimentos no legislativo, especialmente diante da competição com a China e da consolidação regulatória europeia.
O pedido da indústria de IA por regulação ao mesmo governo que ajudou a eleger com promessas opostas representa uma virada significativa no debate sobre governança de tecnologia nos Estados Unidos. O episódio evidencia que a ausência de regras pode gerar incerteza até para quem inicialmente a defendia. Como o marco regulatório americano se desenvolverá — e em que prazo — permanece em aberto, mas o tema ganhou novo protagonismo no centro das discussões sobre o futuro da inteligência artificial.



