Bug em firmware do Coldcard desviou geração de chaves para software previsível por 8 anos, resultando em US$ 130 mi em Bitcoin roubados de 7.300 endereços.
Um bug de firmware em carteiras de hardware Coldcard, da fabricante canadense Coinkite, permitiu o roubo de mais de 2.055 BTC, cerca de US$ 130 milhões, ao longo de três ondas confirmadas de ataques, com uma quarta suspeita. Os invasores não precisaram de phishing, malware ou acesso físico ao dispositivo: bastou calcular as chaves privadas, que eram previsíveis por falha na geração de aleatoriedade.
A Galaxy Research rastreou 1.596 BTC roubados de cerca de 7.300 endereços em três ondas confirmadas, além de 14 incidentes menores. Uma única varredura moveu US$ 70 milhões em 41 minutos. A Coinkite afirma que ao menos 15 atacantes distintos participaram da exploração.
Hack na Coldcard pode chegar a US$ 114 mi em perdas
Em 2021, a Coinkite migrou a criptografia do Coldcard para a biblioteca libsecp256k1, a mesma usada pelo Bitcoin Core. O problema surgiu na integração: a mudança redirecionou silenciosamente a geração de seeds (sequências que originam as chaves privadas) para um gerador pseudoaleatório de software chamado Yasmarang, ignorando o chip de hardware dedicado à aleatoriedade que o dispositivo já possuía.
A causa foi uma linha de código minúscula. Uma diretiva de compilação usava #ifndef, que verifica se uma configuração existe, não se está ativada. Como o valor era zero (“desligado”), mas zero ainda conta como definido, a verificação passou sem erro. O chip de aleatoriedade simplesmente parou de ser consultado.
“A maior parte da aleatoriedade no COLDCARD vinha de um PRNG que eu não sabia que estava no código-fonte.”
Nos modelos Mk2 e Mk3 com firmware 4.0.1 a 4.1.9, o valor inicial do gerador derivava do número de série do chip e do relógio interno. Isso reduziu o espaço de busca de 128 bits, o objetivo de segurança, para cerca de 40 bits. Modelos mais novos chegaram a aproximadamente 72 bits ao misturar alguma entropia adicional. Quarenta bits equivalem a cerca de um trilhão de combinações, um volume que um computador comum consegue percorrer; 128 bits superam o número de átomos no universo observável.
Hot wallet vs cold wallet: segurança e praticidade em cripto
A equipe de engenharia da Block, que publicou análise independente, concluiu que, para dispositivos mais antigos com ID e estado de relógio conhecidos, a geração de carteira é determinística, o oposto do aleatório que a criptografia exige.
“Temos de assumir que alguém usou IA para revisar versões anteriores do nosso firmware e encontrou esse problema.”
A empresa afirma ter rodado um dos melhores modelos de IA disponíveis sobre o mesmo código recentemente, sem detectar a falha. A conclusão é que atacantes e defensores têm acesso às mesmas ferramentas, mas neste caso apenas os primeiros se beneficiaram.
A Coinkite já disponibilizou firmware corrigido para todos os modelos afetados. A atualização, porém, não sana as seeds já geradas com o bug: usuários impactados precisam criar novas carteiras e transferir os fundos. Quem usou versões de firmware vulneráveis deve agir imediatamente.
Análise, impacto no Brasil: O Brasil figura entre os maiores mercados de hardware wallets da América Latina, com adoção crescente entre investidores que buscam autocustódia. Usuários brasileiros de Coldcard nas versões afetadas devem verificar seu modelo e versão de firmware e, se necessário, migrar os ativos para uma carteira gerada com firmware atualizado.
Fontes: Cointelegraph.com News
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