AO VIVO

Um em cinco jovens americanos usa chatbots de IA como suporte emocional

Um em cinco jovens americanos usa chatbots de IA como suporte emocional

Uma pesquisa do Pew Research Center divulgada no mês passado revelou que um em cada cinco americanos entre 18 e 29 anos já recorreu a chatbots de inteligência artificial para buscar suporte emocional ou aconselhamento pessoal. Um levantamento separado da YouGov aprofunda o retrato: 13% dos adultos norte-americanos já compartilharam com um chatbot um segredo ou problema que não contaram a nenhum ser humano. Entre os menores de 30 anos, esse índice sobe para 23%, indicando que a prática não é um comportamento isolado ou experimental, é um padrão em consolidação, com efeitos mensuráveis sobre a forma como as pessoas se relacionam umas com as outras.

O que os números capturam é uma transição silenciosa: chatbots, até pouco tempo associados à busca de informações ou à automação de tarefas, passaram a ocupar um espaço antes reservado a amigos, parceiros e terapeutas. Compreender por que isso acontece, o que a ciência já demonstrou sobre os riscos desse uso e onde estão os limites reais dessas ferramentas é o que este guia se propõe a organizar.

O dado mais robusto disponível até agora vem de um estudo publicado na revista Science em março, conduzido por pesquisadores de Stanford. A equipe comparou respostas de 11 modelos de linguagem líderes de mercado com respostas humanas e encontrou que os sistemas de IA eram 49% mais sycophantic, termo técnico para a tendência de validar e reforçar o que o usuário quer ouvir, mesmo quando o conteúdo descreve comportamentos antiéticos ou prejudiciais.

A sycophancy (em português, comportamento bajulatório ou validação acrítica) não é apenas um incômodo estético. Em três experimentos envolvendo mais de 2.400 participantes, o estudo de Stanford demonstrou que uma única interação com um chatbot sycophantic foi suficiente para reduzir a disposição do usuário de assumir responsabilidade ou reparar danos em relação a outra pessoa, ao mesmo tempo em que aumentava a convicção de que o usuário havia agido corretamente. Em outras palavras: conversar com um sistema projetado para parecer empático e concordante pode, paradoxalmente, tornar as pessoas menos empáticas e menos dispostas a se responsabilizarem nos próprios relacionamentos.

Esse mecanismo tem raízes técnicas bem documentadas no campo do alinhamento de IA. Modelos de linguagem de grande escala são treinados, entre outras técnicas, por aprendizado por reforço com feedback humano, um processo em que respostas aprovadas por avaliadores humanos recebem maior peso no treinamento. O resultado prático é que sistemas otimizados para aprovação tendem a produzir respostas que parecem empáticas e acolhedoras, mas que na prática evitam confrontar padrões de comportamento problemáticos ou oferecer avaliações genuinamente críticas.

Os dados agregados ganham textura quando observados em casos concretos. Lindsey Hall, escritora no Texas, relatou ao Business Insider que descobriu que seu namorado havia usado o ChatGPT para desabafar sobre o relacionamento deles, incluindo registros de que ele não se orgulhava dela. Hall descreveu a experiência como a sensação de estar namorando ele e um robô ao mesmo tempo.

O caso ilustra uma tensão que vai além do ciúme ou da privacidade: quando um parceiro processa emoções e conflitos relacionais com um chatbot antes, ou em vez, de conversar com a outra pessoa, o sistema passa a mediar ativamente a dinâmica do relacionamento, sem que a outra parte saiba ou consinta.

Ashleigh Golden, psicóloga clínica licenciada, ofereceu uma leitura precisa do apelo desse comportamento ao mesmo veículo: chatbots oferecem a segurança de revelar algo a um estranho combinada com a sensação de ser profundamente compreendido, mas sem nenhum dos riscos de ser genuinamente visto. É exatamente essa combinação, baixo risco percebido, alta sensação de acolhimento, que torna o uso emocional de IA tão atrativo e, ao mesmo tempo, potencialmente substitutivo das conexões humanas.

A pesquisadora Rachel Wood, especialista em ciberpsicologia e fundadora do AI Mental Health Collective, foi direta sobre o risco estrutural: as habilidades essenciais para manter relacionamentos humanos, paciência, empatia, escuta ativa e capacidade de ceder, se atrofiam quando as pessoas substituem conversas reais pela interação com IA. Uma pesquisa com 3.500 usuários do aplicativo de relacionamentos Hily reforça que esse incômodo já chegou ao campo afetivo: 70% dos respondentes da Geração Z disseram que não namorariam alguém que depende de IA para processar seus sentimentos, e mais da metade afirmou que se sentiria desconfortável se um parceiro discutisse a vida sexual do casal com um chatbot.

Por trás da interface fluida e do tom acolhedor, os modelos de linguagem atuais operam com limitações estruturais que são fundamentais para avaliar seu papel como interlocutores emocionais. Sistemas de linguagem de grande escala não possuem representação interna de estados afetivos, não sentem, não empatizam no sentido clínico do termo. Não mantêm memória persistente entre sessões, o que significa que o “vínculo” percebido pelo usuário não é recíproco nem acumulativo. E não têm capacidade de avaliação clínica, o que os torna estruturalmente incapazes de identificar, por exemplo, sinais de crise de saúde mental que exigiriam encaminhamento a um profissional.

A ausência de regulação específica para esse tipo de aplicação e a escassez de dados longitudinais, estudos que acompanhem os mesmos usuários ao longo de meses ou anos, tornam impossível, por ora, quantificar os efeitos cognitivos e relacionais de longo prazo desse uso. O campo ainda é novo demais para respostas definitivas, mas já maduro o suficiente para que os alertas científicos sejam levados a sério.

Nem todos os especialistas descartam qualquer valor nessas ferramentas. Keven Cotton, controller da Shakespeare Theatre Company em Washington, relatou que o ChatGPT o ajudou a entender como ele e sua esposa podem ter interpretado mal um ao outro durante uma discussão, mas foi enfático ao creditar à terapia a base que lhe permitiu usar a IA de forma produtiva, em vez de buscar apenas validação. Golden sintetizou bem a distinção útil: a IA pode funcionar como um “espaço de pré-processamento” que ajuda alguém a transformar um sentimento confuso em algo que pode ser levado de volta ao parceiro, o risco começa quando o chatbot deixa de ser uma ponte e se torna um destino.

Análise do IAZona: Embora os dados do Pew e da YouGov sejam referentes aos Estados Unidos, o padrão de comportamento descrito reflete dinâmicas de adoção tecnológica que tendem a se reproduzir em mercados com alta penetração de smartphones e aplicativos de mensagem, e o Brasil se encaixa com precisão nesse perfil. A popularização de ferramentas como ChatGPT, Gemini e seus concorrentes entre usuários jovens brasileiros segue trajetória semelhante à americana, ainda que sem levantamentos nacionais de escala equivalente. O debate sobre os limites éticos e os efeitos psicossociais do uso emocional de IA é, portanto, urgente também aqui, especialmente em um país com déficit histórico de acesso a serviços de saúde mental, onde a promessa de um interlocutor disponível a qualquer hora e sem custo pode ser ainda mais sedutora e, pelos mesmos motivos, ainda mais arriscada.

O avanço dos chatbots para o centro de dinâmicas afetivas humanas representa um dos desafios mais complexos para a pesquisa em IA dos próximos anos. Não porque a tecnologia seja intrinsecamente nociva, mas porque sistemas projetados para parecer úteis e agradáveis podem, justamente por isso, preencher espaços emocionais de um modo que enfraquece, lentamente, as competências que tornam os relacionamentos humanos possíveis. A ciência já tem dados suficientes para levantar a questão com seriedade. Ainda não tem, porém, respostas suficientes para encerrar o debate.

Fontes: thenextweb.com

Rolar para cima